• "O verdadeiro evangelho exalta a Deus... Se camuflado a excelência perderá!"

    O EVANGELHO NO LIVRO DE JÓ | Final



    O EVANGELHO NO LIVRO DE JÓ | Vagner Rodrigues

    Conhecendo a Deus no Sofrimento

    Quem é este, que sem conhecimento encobre o conselho? Por isso relatei o que não entendia; coisas que para mim eram inescrutáveis, e que eu não entendia. Escuta-me, pois, e eu falarei; eu te perguntarei, e tu me ensinarás. Com o ouvir dos meus ouvidos ouvi, mas agora te veem os meus olhos. Por isso me abomino e me arrependo no pó e na cinza.”. Jó 42.3-6

    A igreja cristã confessa duas verdades bíblicas acerca de Deus. A primeira diz respeito à incognoscibilidade[1], isto é, que Ele é incompreensível. Ela reconhece a força da questão levantada por Zofar, “Porventura desvendarás os arcanos de Deus ou penetrarás até a perfeição do Todo-Poderoso?” Jó 11.7. E ela percebe que não tem resposta para a indagação do profeta Isaías. “A quem, pois, fareis semelhante a Deus, ou com que o comparareis?" Is 40.18

    A segunda verdade diz respeito à cognoscibilidade[2], isto é, que Deus pode ser conhecido e que conhecê-Lo é um requisito absoluto para a salvação. Como afirma o Senhor Jesus em João 17.3: “E a vida eterna é esta: que te conheçam a ti, o único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem enviaste

    O fato é que Deus se fez conhecido ao homem pela revelação[3]. Berkhof prefere falar de uma dupla revelação: Geral e Especial, essa se evidencia na Bíblia como palavra de Deus, aquela na natureza que nos cerca, na consciência humana, e no governo providencial do mundo. Sem a revelação, o homem nunca seria capaz de adquirir qualquer conhecimento de Deus, como o apóstolo Paulo nos diz em 1 Coríntios 2.11: “Porque, qual dos homens sabe as coisas do homem, senão o espírito do homem, que nele está? Assim também ninguém sabe as coisas de Deus, senão o Espírito de Deus”. No entanto, iluminado e guiado pelo Espírito Santo pode e deve alcançar um sempre crescente conhecimento de Deus (Os 6.3)

    Nitidamente percebemos na Escritura as múltiplas maneiras pelas quais, Deus se fez conhecido ao homem[4]. Aqui precisamos ressaltar que essa ação divina de se fazer conhecido, acontece na experiência humana. É por isso que o livro de Jó é tão relevante. O sofrimento de Jó parece vir do nada e não tem conexão com seu caráter. Porém ele próprio admite que a calamidade que lhe assolou contribuiu para o aperfeiçoamento da fé. A experiência dolorosa o conduziu a obtenção de mais conhecimento de Deus e de si mesmo.

    Portanto, a realidade do sofrimento na vida de Jó, assim como na experiência do homem debaixo do sol, é um meio pelo qual Deus manifesta a Sua graça para nos revelar necessidades essenciais da alma humana. Quais são essas necessidades? A saber: Conhecer a Deus e a si mesmo.

    Um reformador[5] da igreja escreveu: “Quase toda a soma de nosso conhecimento, que de fato se deva julgar como verdadeiro e sólido conhecimento consta de duas partes: o conhecimento de Deus e o conhecimento de nós mesmos

    1. Conhecer a Si Mesmo.


    Quem é este, que sem conhecimento encobre o conselho? Por isso relatei o que não entendia; coisas que para mim eram inescrutáveis, e que eu não entendia”. Jó 42.3 

    Jó é o homem que encontrou com Deus no sofrimento. Nesse encontro o véu de sua ignorância é rasgado, ele confessa que falou com conhecimento limitado, falando com confiança demasiada acerca de coisas maravilhosas demais para entender. 

    John Piper no livro, “Finalmente Vivos”, escreve: "Em nossos dias, talvez precisemos lembrar não a dificuldade de compreendermos e aceitarmos o conhecimento de Deus – isso é mais ou menos óbvio –, e sim a dificuldade de compreendermos e aceitarmos o conhecimento de nós mesmos. De fato, isso talvez seja ainda mais difícil porque um conhecimento verdadeiro de nós mesmos admite um conhecimento verdadeiro de Deus e porque tendemos a pensar que já conhecemos a nós mesmos, quando, na verdade, a profundidade de nossa condição está além de nossa compreensão, sem a ajuda de Deus.

    a. Coração Enganoso. 

    Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e perverso; quem o conhecerá?” Jr 17.9 

    O salmista Davi disse: “Quem há que possa discernir as próprias faltas? Absolve-me das que me são ocultas”. Na verdade, a Escritura revela o quanto somos ignorantes com relação a nós mesmos. O poeta[6] diz: “Perdi-me dentro de mim porque eu era labirinto...” nossa alma é como um labirinto no qual nos perdemos. Somente Deus nos conhece plenamente, como está escrito em Jeremias 17.10a “Eu, o SENHOR, esquadrinho o coração e provo os rins; e isto para dar a cada um segundo os seus caminhos e segundo o fruto das suas ações”. E ainda no Salmo 139.1-4: “SENHOR, tu me sondaste, e me conheces. Tu sabes o meu assentar e o meu levantar; de longe entendes o meu pensamento. Cercas o meu andar, e o meu deitar; e conheces todos os meus caminhos. Não havendo ainda palavra alguma na minha língua, eis que logo, ó SENHOR, tudo conheces”. 

    A condição desesperada do coração humano precisa do diagnóstico realizado pela Escritura (Hb 4.12: "Porque a palavra de Deus é viva e eficaz, e mais penetrante do que espada alguma de dois gumes, e penetra até à divisão da alma e do espírito, e das juntas e medulas, e é apta para discernir os pensamentos e intenções do coração") e da cura espiritual por meio dAquele que verdadeiramente tomou sobre Si as nossas enfermidades, e as nossas dores levou sobre Si; e nós o reputávamos por aflito, ferido de Deus, e oprimido; mas Ele foi ferido por causa das nossas transgressões, e moído por causa das nossas iniquidades; o castigo que nos traz a paz estava sobre Ele, e pelas Suas pisaduras fomos sarados[7]. 

    b. Coração Perverso. 

    Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e perverso; quem o conhecerá?” Jr 17.9 

    Na verdade não compreendemos quão profunda é a perversidade do nosso coração (refere-se à natureza pecaminosa). Se o nosso perdão dependesse da plenitude de conhecimento de nossos pecados, todos pereceríamos. Mas em que consiste a nossa pecaminosidade? 

    Esse pecado foi descrito por Santo Agostinho como o resultado do orgulho, do movimento através do qual uma criatura (isto é, um ser essencialmente dependente cujo princípio de vida não é contido em si mesmo, mas em Outro, isto é, em Deus) tenta estabelecer-se por si mesma, existir por si mesma. É quando o homem passa a ter percepção de Deus como Deus e de si mesmo como o "eu", diante da alternativa de escolher entre ambos, escolhe o "eu". Esse pecado é cometido diariamente por nós. 

    Trata-se da Queda na vida de cada indivíduo, e, em cada dia de cada vida individualmente, o pecado básico por detrás de todos os pecados particulares: neste justo momento você e eu estamos cometendo, prestes a cometer, ou arrependendo-nos dele. 

    A Escritura não nos deixa sem ajuda para conhecermos a nós mesmos. O fato de não sabermos plenamente quão pecadores somos não significa que não podemos conhecer profunda e sinceramente a nossa pecaminosidade. 

    Quando o homem tem um verdadeiro encontro com Deus percebe o quanto é pecador, pois a revelação da glória de Deus conduz a uma convicção da condição adâmica de sua natureza, a Escritura nos ensina em Romanos 3.23: “Porque todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus”. O apóstolo João na primeira carta diz: “Se dissermos que não temos pecado, enganamo-nos a nós mesmos, e não há verdade em nós” (1.8). 

    O profeta Isaías quando no encontro com Deus seu pensamento e ânimo agigantaram a sua consciência da santidade de Deus e, cônscio do seu próprio pecado e indignidade, o profeta exclama que está perdido: “Então disse eu: Ai de mim! Pois estou perdido; porque sou um homem de lábios impuros, e habito no meio de um povo de impuros lábios; os meus olhos viram o Rei, o Senhor dos Exércitos[8]”. 

    Todavia essa convicção em Jó não é a prova da qual seus amigos estavam certos ao acusá-lo. Ele sabia que era pecador, mas não vivia na prática do pecado como eles queriam que confessasse. 

    As palavras nas quais Jó refere-se a si mesmo “me abomino e me arrependo” expressa uma sincera contrição e pesar diante das suas palavras estultas, pronunciadas apressadamente e na ignorância. 

    A compreensão da palavra “me arrependo” é de vital importância para não atribuir-lhe um número exagerado de conotações penitenciais por pecados cometidos os quais pesavam sobre a consciência. A história inteira estaria falida se fosse este o resultado final. Jó teria se rendido finalmente diante das exigências insistentes dos amigos no sentido de confessar seus pecados. Porém Jó não confessa pecado algum aqui. E, mesmo que isto seja subentendido, uma coisa é arrepender-se diante de Deus, reconhecendo sua condição como filho de Adão[9] e outra coisa repudiar sua própria integridade diante dos homens. 

    As palavras de Jó ao “pó e à cinza” nos fazem lembrar das palavras de Abraão quando estava orando a Deus em Gn 18.27: “E respondeu Abraão dizendo: Eis que agora me atrevi a falar ao Senhor, ainda que sou pó e cinza”. Como aquele que suplica humildemente, ele conhece sua condição. Mas, lado a lado com Jó, Abraão é o homem justificado pela fé, e ajoelhar-se assim diante de Deus é uma honra que o exalta acima de todos os demais homens. 

    Fomos redimidos pela graça de Deus manifesta em seu Filho e, portanto, libertados do pecado para não mais vivermos na prática dele (Rm 6.14: “Porque o pecado não terá domínio sobre vós, pois não estais debaixo da lei, mas debaixo da graça”). 

    No entanto, precisamos compreender que ainda somos pecadores[10]. O fato de sermos novas criaturas em Cristo não significa ausência de pecaminosidade, mas, sim, poder para resistir ao pecado. A nova vida em Cristo nos fortalece para combater o pecado e vencê-lo, assim, como Ele venceu. O autor aos Hebreus 12.3-4 diz: “Considerai, pois, Aquele que suportou tais contradições dos pecadores contra Si mesmo, para que não enfraqueçais, desfalecendo em vossos ânimos. Ainda não resististes até ao sangue, combatendo contra o pecado”. Portanto, conhecer a si mesmo é compreender essa verdade. 

    2. Conhecer a Deus. 


    Com o ouvir dos meus ouvidos ouvi, mas agora te veem os meus olhos”. Jó 42.5 

    Jó não precisa de mais nada. Ele se curva diante de Deus não como alguém que tem medo dAquele que não conhece, mas como aquele que O teme, simplesmente porque agora te veem os meus olhos. Trata-se de alguém que diz de si mesmo com o ouvir dos meus ouvidos ouvi, mas agora eu te conheço. 

    a. O Desejo. 

    Assim como o cervo brama pelas correntes das águas, assim suspira a minha alma por ti, ó Deus! A minha alma tem sede de Deus, do Deus vivo; quando entrarei e me apresentarei ante a face de Deus”? Sl 42.1-2 

    O anseio mais profundo de todo aquele que verdadeiramente se converte ao evangelho é conhecer a Deus, o anelo de sua alma é Deus; o desejo mais profundo do cristão é a divindade. A mais poderosa expectativa que possa prender a atenção de um filho de Deus é o nome, a natureza, a pessoa, a obra, as ações e a existência do grande Deus, a quem chama Pai. 

    J. I. Packer em “O Conhecimento de Deus” escreve: 

    Nada é melhor para o desenvolvimento da mente que contemplar a divindade. Trata-se de um assunto tão vasto, que todos os nossos pensamentos se perdem em sua imensidão; tão profundo que nosso orgulho desaparece em sua infinitude. Podemos compreender e aprender muitos outros temas, derivando deles certa satisfação pessoal e pensando enquanto seguimos nosso caminho: "Olhe, sou sábio". Mas quando chegamos a esta ciência superior e descobrimos que nosso fio de prumo não consegue sondar sua profundidade e nossos olhos de águia não podem ver sua altura, nos afastamos pensando que o homem vaidoso pode ser sábio, mas não passa de um potro selvagem, exclamando então solenemente: "Nasci ontem e nada sei". Nenhum tema contemplativo tende a humilhar mais a mente que os pensamentos sobre Deus”. 

    Existe um bálsamo na contemplação de Cristo para cada ferida; na meditação sobre o Pai, há consolo para todas as tristezas, e na operação do Espírito Santo, alívio para todas as mágoas. Você quer esquecer sua tristeza? Quer livrar-se de seus cuidados? Quer superar o sofrimento? Então, vá, atire-se no mais profundo mar da divindade; perca-se na sua imensidão, e sairá dele completamente descansado, reanimado e revigorado. Deseje ardentemente a Deus, satisfaça-se nEle. Aleluia! 

    b. A Busca. 

    Buscai ao SENHOR enquanto se pode achar, invocai-o enquanto está perto”. Is 55.6 

    Precisamos reconhecer como é pequeno nosso conhecimento sobre Deus. Muitos de nós, creio, não tem ideia de quão pobres somos neste sentido. O profeta Oséias nos diz: “Então conheçamos, e prossigamos em conhecer ao SENHOR...” (6.3). Jesus quando estava na terra convidava os homens a segui-Lo; desse modo vinham a conhecê-Lo e, conhecendo-O, conheciam o Pai. 

    Embora Jesus Cristo agora não esteja presente em corpo, espiritualmente isso não faz diferença; ainda podemos encontrar e conhecer a Deus buscando a Jesus. No evangelho de João está escrito: “Deus nunca foi visto por alguém. O Filho unigênito, que está no seio do Pai, esse o revelou” (1.18). E ainda no profeta Jeremias está escrito: “E buscar-me-eis, e me achareis, quando me buscardes com todo o vosso coração” (29.13). 

    Os que buscarem o Senhor Jesus até encontrá-Lo[11] - pois a promessa é que se o buscarmos de todo o coração com certeza o encontraremos - poderão levantar-se diante do mundo para testificar que conhecem a Deus. 

    Conhecer a Deus verdadeiramente implica em desejá-Lo intensamente e, por sua vez, esse desejo por Deus nos impele a buscá-Lo. 

    Conclusão 

    Por fim Jó é o homem que não tem mais perguntas, acerca de seu sofrimento, diante da revelação divina. Ele não precisava de mais nenhuma explicação divina sobre a vida dele ou de quem quer que fosse! Ele não sabia quase nada sobre a vida e seus mistérios na Terra, mas agora ele conhece Aquele que conhece tudo sobre todos e sobre sua própria vida; e, sobretudo, que conhecia tudo acerca dos emaranhados mistérios de seu próprio ser. Por isso ele diz: Com o ouvir dos meus ouvidos ouvi, mas agora te veem os meus olhos. 


    Bibliografia
     
    · Packer, J.I. O Conhecimento de Deus. Ed. Vida Nova. 
    · Piper, John. Finalmente Vivos. Ed. Fiel. 
    · Berkhof, Louis. Teologia Sistemática. Ed. Cultura Cristã. 
    · Sá Carneiro, Mário de Sá. Dispersão. 
    · Lewis, C.S. O Problema do Sofrimento. Ed. Vida. 
    · Anderson, Francis I. Jó – Introdução e Comentário. Série Cultura Cristã. Ed. Vida Nova. 
    · Jackson, D.R. Clamor por Justiça. O Evangelho Segundo Jó. Ed. Cultura Cristã. SP. 
    · Bíblia Sagrada. 

    Vagner Rodrigues | Pastor e professor de teologia.

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    [1] Que não pode ser conhecido. 
    [2] Que se pode conhecer. 
    [3] E quando falamos de revelação, empregamos o termo no sentido estrito da palavra. Não se trata de uma coisa na qual Deus é passivo, um mero “tornar-se manifesto”, mas uma coisa na qual Ele ativamente se faz conhecido (Berkhof). 
    [4] Sl 19.1-2; At 14.17; Rm 1.19-20; 2Rs 17.13; Sl 103.7; Jo 1.18; Hb 1.1-2. 
    [5] João Calvino, nas Institutas da Religião Cristã. 
    [6] Mário de Sá Carneiro em “Dispersão”. 
    [7] Isaías 53.3-4. 
    [8] Isaías 6.5. 
    [9] Uma expressão usada para se referir à natureza pecaminosa que herdamos de Adão. 
    [10] 1 João 1.8. 
    [11] Mateus 7.7-8 “Pedi, e dar-se-vos-á; buscai, e encontrareis; batei, e abrir-se-vos-á. Porque, aquele que pede, recebe; e, o que busca, encontra; e, ao que bate abrir-se-lhe-á”. .

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