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    O EVANGELHO NO LIVRO DE JÓ | Parte VI




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    O EVANGELHO NO LIVRO DE JÓ | Vagner Rodrigues

    O Evangelho Segundo Jó – Deus é Soberano


    Bem sei eu que tudo podes, e que nenhum dos teus propósitos podem ser impedidos”. Jó 42.2

    A satisfação de Jó é evidente após a revelação de Deus no redemoinho[1], sua visão foi ampliada além de todos os limites anteriores. Tem uma nova apreciação do escopo e da harmonia do mundo de Deus, do qual ele é uma parte minúscula.

    Essa descoberta, no entanto, não o faz sentir-se insignificante. Agora, somente ao olhar para coisas comuns, reconhece que sequer pode começar a imaginar como seria a existência de Deus. O mundo é belo e aterrorizante, Deus está em todos os lugares, visto como poderoso, soberano e sábio, e mais misterioso quando Ele é conhecido do que quando é apenas discernido de modo pouco claro. 

    O Senhor falou a Jó. Esse fato em si é maravilhoso, Deus se manifesta no redemoinho a Jó fazendo-o crescer em sabedoria, ao mesmo tempo encantando-o e envergonhando-o. Sua primeira expressão impetuosa e espontânea, tão diferente da reserva na sua resposta ao primeiro discurso[2], é uma expressão de adoração e uma declaração da soberania de Deus: “Bem sei eu que tudo podes, e que nenhum dos teus propósitos podem ser impedidos.”.

    Esta lição consiste em ressaltar uma verdade inquestionável revelada na Escritura Sagrada, que Deus é Soberano, no entanto, há outra verdade a qual precisamos admitir embora confessemos a soberania de Deus em geral não a compreendemos.

    O fato de crermos na soberania divina deve nos conduzir a interpretar a vida através da fé e não pelo que os olhos veem, como diz o apóstolo Paulo em 2 Co 5.7: "Porque andamos por fé, e não por vista". 

    1. Definição da Soberania Divina.


    Soberania significa governo, e a soberania de Deus significa que Deus governa a sua criação com absoluto poder e autoridade. Ele está no controle dos acontecimentos. Deus não fica alarmado, frustrado ou derrotado pelas circunstâncias, pelo pecado ou pela rebeldia de suas criaturas. No que concerne à etimologia, “Soberano” vem do latim vulgar “Superanus”, “que ou aquele que detém poder ou autoridade suprema[3]”.

    a. Soberania como Atributo de Deus.

    Convém ressaltar que, ao contrário do que muitas pessoas pensam, “Soberania” não diz respeito a um atributo específico do Ser de Deus. Com esta afirmação quer-se dizer, em sua essência, Deus é absolutamente soberano, e, como efeito lógico desse pensamento, é muito apropriada à afirmação do Dr. Heber Carlos de Campos: “Essencialmente Deus é soberano e, por causa disso, todos os seus atributos têm a coloração de sua soberania[4]”. 

    A Escritura Sagrada sempre apresenta Deus como o Senhor, que está assentado no trono, o que é um indicativo claro da sua soberania sobre tudo o que criou[5]. Antes de um atributo específico, trata-se de uma virtude inerente à constituição perfeita do Ser divino. O teólogo, Dr. Louis Berkhof inclui o poder e a vontade de Deus como “atributos de soberania[6]”. Isso se dá pelo fato de que nesses atributos, Deus exerce a sua prerrogativa de Soberania, agindo como lhe apraz. 

    A Soberania de Deus pode ser definida, de acordo com A. W. Pink, como “o exercício de sua supremacia[7]”. De acordo com essa definição, Deus é infinitamente superior à sua criação, ou como afirmava certo teólogo, "Deus é Totalmente Outro". Continuando com o pensamento de A. W. Pink, “sendo Deus infinitamente elevado acima da mais elevada criatura, Ele é o altíssimo, o Senhor dos céus e da terra. Não sujeito a ninguém, não influenciado por nada fora de si mesmo. Ele é absolutamente livre e independente”.

    A palavra “soberania”, quando aplicada a Deus, quer dizer que há uma absoluta totalidade do poder, vontade, misericórdia, graça, bondade, sabedoria e todos os demais atributos do Ser de Deus[8]. Ele é aquele que tem o domínio total da Criação. 

    b. Deus é Deus.

    Declarar que Deus é soberano é declarar que Deus é Deus. Em 2 Crônicas 20.6 a Escritura diz: “E disse: Ah! SENHOR Deus de nossos pais, porventura não és tu Deus nos céus? Não és tu que dominas sobre todos os reinos das nações? Na tua mão há força e potência, e não há quem te possa resistir”. Afirmar a soberania divina é declarar que Ele é o altíssimo, o qual tudo faz segundo sua vontade no exército dos céus e entre os moradores da terra. 

    Dizer que Deus é soberano é declarar que Ele é onipotente, possuidor de todo o poder nos céus e na terra, de maneira que ninguém pode impedir os seus conselhos, contrariar os seus propósitos ou resistir à sua vontade, como o Salmo 115.3 afirma: “Mas o nosso Deus está nos céus; fez tudo o que lhe agradou”. 

    Dizer que Deus é soberano é declarar que Ele ‘governa as nações[9]’, estabelecendo reinos, derrubando impérios e determinando o curso das dinastias, segundo o seu agrado[10]. 

    A Soberania de Deus é a prerrogativa através da qual Ele, em plena superioridade e realeza, governa toda a criação, de acordo com o sábio conselho da sua vontade e poder soberanos.

    Diante dessa verdade a igreja deve se alegrar e confiar, pois mesmo que aparentemente Deus não esteja no controle, Ele controla todas as coisas pela palavra do seu poder. Aleluia!

    2. O Soberano Poder de Deus.

    Bem sei eu que tudo podes...” Jó 42a 

    A perfeição divina que está num relacionamento mais próximo com a prerrogativa soberana de Deus é o seu poder. Por consequência lógica, para que Ele possa realizar exatamente aquilo que lhe apraz, aquilo que deseja, é necessário que Deus tenha soberano poder, a fim de proceder com seus desígnios. 

    a. Deus é Todo-Poderoso.

    Para que Deus possa ser Deus, é imprescindível que ele seja Todo-poderoso. Ou, ainda nesse sentido, como diz A. W. Pink “quem não pode fazer o que quer e não pode realizar o que lhe agrada, não pode ser Deus. Como Deus tem uma vontade para decidir o que julga bom, assim tem poder para executar a sua vontade[11]”.

    O poder de Deus é a capacidade que ele possui de pôr em prática todos os seus desígnios, sendo bastante para isso, um comando de sua vontade divina. Por ser infinito o seu poder, Deus é soberano no sentido de poder provocar todos os efeitos que, em seu consentimento, Ele assim desejar[12]. 

    b. O Poder e a Palavra de Deus.

    No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. Ele estava no princípio com Deus. Todas as coisas foram feitas por Ele, e sem Ele nada do que foi feito se fez”. Jo 1.1-3

    Deus é a causa de todas as coisas. Portanto, Deus é tão poderoso o ponto de poder criar as coisas unicamente pela Sua palavra. O ser humano precisa empregar meios para conseguir seus propósitos. Já o Deus Todo-poderoso dispensa o uso de todo e qualquer meio, pois Ele criou e através dEle tudo se fez. Disse Deus: ‘Haja luz’, e houve luz[13]. Ele, mediante Sua palavra, criou os céus e a terra. Em resumo, o poder de Deus se manifesta na Sua Palavra Eterna: Jesus Cristo. 

    O poder de Deus é como Ele mesmo: infinito, eterno, incompreensível[14]; como diz C. H. Spurgeon: “O poder de Deus é como ele mesmo, autoexistente, autossustentado. O mais poderoso dos homens não pode acrescentar sequer uma sombra de poder ao Onipotente. Ele não se firma sobre nenhum trono reforçado; nem se apoia em nenhum braço ajudador. Sua corte não é mantida por seus cortesãos, nem Ele toma emprestado das suas criaturas o seu esplendor. Ele próprio é a grande fonte central e o originador de toda energia[15]”.

    3. A Vontade Soberana de Deus.


    “... Nenhum dos teus propósitos podem ser impedidos”. Jó 42.2b

    O termo “vontade”, geralmente, é definido nos dicionários etimológicos como “capacidade de escolha, de decisão”, “anseio” e “desejo”. O termo quando aplicado ao homem é entendido como a faculdade da escolha. Entretanto, quando se referindo à pessoa do Deus Todo-poderoso, o vocábulo tem o seu significado essencial ampliado para a capacidade de autodeterminação inerente à divindade. A vontade de Deus está vinculada à sua supremacia soberana. Ontologicamente[16], Deus é um ser volitivo, ou seja, a sua vontade soberana determina, estabelece e permeia toda a sua constituição perfeita. Com isso, todos os seus atos também são soberanos.

    Deve ser entendido também que Deus é um ser tanto pessoal quanto moral. A sua vontade diz respeito tanto à sua prerrogativa soberana quanto a sua moralidade. No que concerne a essa última, Deus, por ser infinitamente santo, prescreve leis e ordenanças que devem ser observadas devidamente por suas criaturas. E como governador soberano que é, Deus faz tudo o que lhe apraz na vida das suas criaturas e na administração (governo) da ordem criada. Deus é o Legislador Soberano. Essas são apenas duas formas de Deus exprimir a sua vontade[17]. Pode-se perceber, com muita sensibilidade, que a expressão da vontade soberana de Deus possui um caráter teleológico[18], ou seja, possui um alvo a ser atingido, a saber, a manifestação de sua própria glória, como afirma a Escritura em Romanos 11.36: “Porque dEle e por Ele, e para Ele, são todas as coisas; glória, pois, a Ele eternamente. Amém”.

    a. Liberdade Volitiva.

    O qual se deu a si mesmo por nossos pecados, para nos livrar do presente século mau, segundo a vontade de Deus nosso Pai”. Gl 1.4

    A vontade soberana de Deus possui algumas peculiaridades que devem ser mencionadas aqui sucintamente. Ela é uma vontade livre, isto é, sua expressão é livre. Essa característica possui estreita afeição com sua soberania; é uma vontade necessária, na qual o próprio Deus é o receptáculo da sua vontade. Por necessidade “Ele ama a si próprio e tem prazer na contemplação das suas perfeições[19]”.

    b. Vontade Eterna.

    É uma vontade eterna, pois assim como Deus é eterno, segue-se que tudo no ser divino também o é. Os seus preceitos eternos são expressões da sua vontade eterna; é imutável, possuindo o mesmo princípio da característica anterior, ou seja, “a imutabilidade da vontade divina está fundada na imutabilidade do seu ser[20]”; assim como Deus é onipotente, igualmente é a sua vontade. Nada, nem ninguém, em todo o universo criado, têm a capacidade de se opor e contrariar a vontade soberana de Deus. Como afirma a Escritura em Isaías 43.13: “Ainda antes que houvesse dia, eu sou; e ninguém há que possa fazer escapar das minhas mãos; agindo eu, quem o impedirá”? 

    c. Vontade Autolimitada.

    A vontade de Deus é autolimitada, com isto quer-se dizer que Deus é tão poderoso que estabelece limites para Ele próprio. Sua santa vontade limita o uso do seu poder, ou, em outras palavras, “Deus pode fazer tudo o que ele deseja, porém ele não deseja fazer tudo o que pode[21]”. Deus não age arbitrariamente. 

    d. Vontade Sábia.

    A vontade de Deus é sábia, ou seja, para que Ele seja justo em tudo aquilo em que o apraz e se deleita, por necessidade, sua sabedoria também permeia sua vontade. A vontade de Deus é sábia porque Ele sempre escolhe o que é melhor. “A operação da sabedoria de Deus envolve a expressão de sua vontade[22]” (Sl 104.1-34; Rm 11.33; 1 Co 2.7).

    A vontade de Deus pode ser distinguida em: vontade decretiva, que se refere ao plano eterno de Deus e que ele levará a cabo perfeitamente (Dn 4.17, 25, 32, 35; Rm 9.18, 19); vontade preceptiva, em que Deus dá às suas criaturas racionais e morais um modus vivendi[23] correto, isto é, trata-se dos seus preceitos e prescrições. Esse aspecto da sua vontade está perfeitamente revelado nas Sagradas Escrituras (2 Cr 27.6; Sl 40.8; 143.8-10; Mt 7.21; 12.50).

    Conclusão

    Tua é, SENHOR, a magnificência, e o poder, e a honra, e a vitória, e a majestade; porque teu é tudo quanto há nos céus e na terra; teu é, SENHOR, o reino, e tu te exaltaste por cabeça sobre todos”. 1Cr 29:11

    Você compreende o que implica a afirmação “Deus é Soberano”? Na introdução vimos que, embora em meio a calamidade, Jó permanecia confiante que Deus estava em completo controle de tudo. É o que implicam as palavras "Soberania de Deus". Quando dizemos que DEUS é soberano, queremos dizer que Deus tem poder absoluto sobre tudo. Ele é o Supremo, o Grande Rei; Ele é Deus. Ele faz a sua vontade no céu e na terra, e não existe mas ninguém que possa deter a sua mão e Lhe dizer: "O que fazes?". Quando dizemos que Deus é soberano, queremos dizer que Ele é o Deus Todo Poderoso, que possui todo poder no céu e na terra e que ninguém pode resistir a sua vontade. Este é o Deus do Evangelho. Confie em Deus e descanse nEle. Aleluia. 

    Vagner Rodrigues | Pastor e professor de teologia.

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    [1] Jó 38. 
    [2] Jó 40.3-5. 
    [3] Antônio Geraldo da Cunha, Dicionário Etimológico Nova Fronteira da Língua Portuguesa, (Nova Fronteira), 744. 
    [4] Heber Carlos de Campos, O Ser de Deus e suas Obras: A Providência e sua Realização Histórica. São Paulo: Cultura Cristã, 2001, 393. 
    [5] 1 Rs 22.19; Is 6.1; Ez 1.26; Dn 7.9; Ap 4.2; cf. Sl 11.4; 45.6; 47.8,9; Hb 12.2; Ap 3.21. 
    [6] Louis Berkhof, Teologia Sistemática. São Paulo: Cultura Cristã, 2001, pg. 78. 
    [7] A. W. Pink, Os Atributos de Deus. São Paulo: PES, 2001, pg. 31. 
    [8] São as virtudes inerentes ao Ser de Deus as quais revelam Sua perfeição. 
    [9] Sl 22.8. 
    [10] A. W. Pink, Os Atributos de Deus. São Paulo: PES, 2001, pg. 20. 
    [11] A. W. Pink, Os Atributos de Deus, 66. 
    [12] A. A. Hodge, Esboços de Teologia, São Paulo: PES, 2001, pg. 198. 
    [13] Gênesis 1.3. 
    [14] S. Charnock em A. W. Pink, Os Atributos de Deus, pg. 66. 
    [15] C. H. Spurgeon em A. W. Pink, Ibid, 68. 
    [16] Que se refere ao Ser de Deus. 
    [17] Heber Carlos de Campos, O Ser de Deus e Suas Obras: A Providência e Sua Realização Histórica, pg. 352. 
    [18] A teleologia (do grego τέλος, finalidade, e logía, estudo) é o estudo dos fins, isto é, do propósito, objetivo ou finalidade. 
    [19] Louis Berkhof, Teologia Sistemática, 75. 
    [20] Heber Carlos Campos, O Ser de Deus e Suas Obras: A Providência e Sua Realização Histórica, pg. 354. 
    [21] Augustus H. Strong, Teologia Sistemática, São Paulo: Hagnos, 2002, vol. I pg. 287. 
    [22] J. I. Packer, Teologia Concisa, São Paulo: Cultura Cristã, 1996, 46. 
    [23] Termo em latim que significa “modo de viver”.


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