• "O verdadeiro evangelho exalta a Deus... Se camuflado a excelência perderá!"

    O EVANGELHO NO LIVRO DE JÓ | Parte V




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    O EVANGELHO NO LIVRO DE JÓ | Vagner Rodrigues

    O Evangelho Segundo Jó – Justificação pela Fé 


    Porque eu sei que o meu Redentor vive, e que por fim se levantará sobre a terra. E depois de consumida a minha pele, contudo ainda em minha carne verei a Deus, vê-lo-ei, por mim mesmo, e os meus olhos, e não outros o contemplarão; e por isso os meus rins se consomem no meu interior”. Jó 19.25-27. 

    Os amigos narram as desgraças de Jó como sendo o efeito de leis morais que controlam os movimentos dos homens em derredor do Deus central assim como a gravidade governa os movimentos dos planetas em derredor do sol[1]. 

    No pensamento deles a justiça de Deus consiste em manter estas leis, tanto naturais quanto morais. A opinião comum entre os filósofos, cujo deus é um mero fator numa fórmula racional.

    A perspectiva de Jó é completamente diferente. Ele não vê Deus lidando consigo através de leis. Está vividamente consciente da sua integridade diante de Deus, e cita-O claramente como sendo o único agente de tudo quanto “acontece” [2]. A moralidade não é ponto de conexão, ou seja, seu sofrimento não resultava de iniquidade, como seus amigos o acusavam.

    Jó não pode entender por que Deus agora estava agindo de um modo tão desarmônico com aquilo que sempre acreditara, acerca de Deus, na sua experiência com o Criador. De alguma maneira, deveria recuperar sua amizade com Deus através de modos que superassem a fórmula teológica de seus amigos.

    Perplexo ante ao seu sofrimento e sem explicações para responder as razões pelas quais Deus “permitira” todo seu infortúnio, confiantemente, refere-se a Deus numa expressão profética de fé nAquele que defende a nossa causa: “Porque eu sei que o meu Redentor vive...”.

    Assim, Jó precede ao apóstolo Paulo na confiança de que a justiça de Deus se revela no Evangelho, de fé em fé[3]. 

    Nesta lição veremos princípios da justificação pela fé em Jó.

    1. O Triunfo da Fé.


    Porque eu sei que o meu Redentor vive, e que por fim se levantará sobre a terra”. Jó 19.25

    Jó atenta para a justiça de Deus, a fim de encontrar reacendida a esperança que o presente lhe nega. A sua consciência de separação do homem, pois todos o haviam rejeitado, é infinitamente menos séria que a sua consciência de separação de Deus. 

    Então, subitamente surge a confiança maravilhosa em “Alguém” que defenderá a sua causa, que o levantará das sombras do Seol[4] existencial nas quais penetrou em opróbrio, para lhe fazer ouvir “creu Jó em Deus e isso lhe foi imputado para justiça”.

    a. Meu Redentor Vive. 

    O termo Redentor é suscetível de outra tradução, sua origem vem do hebraico go’el, e pode significar "justificador", parente e vingador. Podemos definir go’el como o parente mais próximo a quem a lei civil impunha o dever de redimir a propriedade ou a pessoa do seu ente e a quem a lei judicial obrigava a vingar o sangue desse quando fosse injustamente derramado. Portanto, aqui encontramos a ideia de uma justificação vindoura, que é pela fé, nAquele que nos justifica.

    Seria ideal que todo cristão lesse os versículos 25-27 encontrando na passagem um eco dAquele que vive sempre "para interceder por eles[5]", dAquele que "trouxe à luz a vida e a incorrupção pelo Evangelho[6]". Sem dúvida, para Jó eram desconhecidas as joias mais preciosas que as suas palavras concluem. Ele proferiu-as sem consciência do seu inteiro significado, no entanto, ainda assim, olhando para o autor e consumador da sua fé, o Redentor-Justificador. 

    2. O Evangelho da Justificação.


    E depois de consumida a minha pele, contudo ainda em minha carne verei a Deus, vê-lo-ei, por mim mesmo, e os meus olhos, e não outros o contemplarão; e por isso os meus rins se consomem no meu interior”. Jó 19.26-27

    Existe uma ênfase tremenda sobre “ver a Deus;” o assunto é enfatizado três vezes nos vv. 26-27. Até agora, Jó tem mostrado uma necessidade de ouvir Deus falar. Ele quer ver a Deus. As referências à pele, a carne, e aos olhos tomam claro que Jó espera ter esta experiência como homem. O Antigo Testamento revela várias circunstâncias notáveis em que pessoas tais como Abraão, Moisés e Isaías “viram” a Deus, e Jó, sem dúvida, têm algo semelhante em mente. 

    Os vv. 25-27 claramente ressaltam as conotações jurídicas: o “Redentor-Justificador” que “se levantará” para pleitear em favor de Jó como a “testemunha” e o “advogado de defesa” não é nenhum outro senão o próprio Deus.

    Mas, ao contrário do que geralmente se afirma, Jó não está transferindo suas esperanças para o além e nem tão pouco nos falando de “ressurreição do corpo” (pelo menos essa não é a ênfase aqui); ele afirma que neste corpo e com seus olhos ainda veria ao Deus Vivo e que Ele ainda se levantaria e se tornaria o Redentor de sua vida.

    De modo semelhante, os crentes encontram verdadeiro conforto na justiça de Deus revelada no Evangelho. Assim escreve o apóstolo Paulo aos Romanos 1.16-17:

    Porque não me envergonho do evangelho de Cristo, pois é o poder de Deus para salvação de todo aquele que crê; primeiro do judeu, e também do grego. Porque nele se descobre a justiça de Deus de fé em fé, como está escrito: Mas o justo viverá da fé”. 

    a. Não pelas obras para que ninguém se glorie.

    Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus. Não vem das obras, para que ninguém se glorie; porque somos feitura sua, criados em Cristo Jesus para as boas obras, as quais Deus preparou para que andássemos nelas”. Ef 2.8-10

    O deus dos amigos de Jó é um insensível aplicador de leis. Ele não tem comunhão com o ser humano, nem se importa com ele. Apenas observa, como testemunha distante, se estão certos ou errados. Porém Jó afirma que Deus se importa com o homem e dele se aproxima para ouvi-lo e salvá-lo. Deus criou o homem e o ama graciosamente[7].

    O evangelho dos amigos de Jó é o evangelho da salvação pelas obras. Se alguém faz o que é certo, alcança justiça pelas obras. No entanto, Jó crê em um Deus que ama o pecador e vem em seu socorro para salvá-lo. Mesmo diante da nossa miséria espiritual e da insuficiência de nossas obras é possível confiar em nossa salvação, tendo em vista que ela é baseada na graça de Deus. Em Tito 3.5-7, se diz:

    Não pelas obras de justiça que houvéssemos feito, mas segundo a sua misericórdia, nos salvou pela lavagem da regeneração e da renovação do Espírito Santo, que abundantemente ele derramou sobre nós por Jesus Cristo nosso Salvador; para que, sendo justificados pela sua graça, sejamos feitos herdeiros segundo a esperança da vida eterna”.

    b. A Justiça de Deus.

    Os discursos dos amigos de Jó corrompiam algo de que ele não podia negociar: os princípios do Evangelho. Somente o genuíno evangelho pode dar resposta ao problema de como um Deus justo e misericordioso pode impor sofrimento a um homem íntegro. 

    A justiça de Deus nos é revelada no Evangelho, como escreve o apóstolo Paulo em Romanos 1.17. Ele havia experimentado o poder do evangelho que o transformou de perseguidor da igreja em ministro de Jesus Cristo, fazendo dele o modelo de todos os quais creem no evangelho[8]. Diante de Cristo o apóstolo dos gentios rejeitou todo seu histórico religioso e justiça própria para ser encontrado em Cristo e ter a justiça de Deus através da fé. Em Filipenses 3.9 está escrito: “E seja achado nele, não tendo a minha justiça que vem da lei, mas a que vem pela fé em Cristo, a saber, a justiça que vem de Deus pela fé”.

    3. A Justificação pela Fé.


    Mas agora se manifestou sem a lei a justiça de Deus, tendo o testemunho da lei e dos profetas; isto é, a justiça de Deus pela fé em Jesus Cristo para todos e sobre todos os que creem; porque não há diferença”. Rm 3.21-22.

    Esta verdade, a Justificação pela Fé, foi estabelecida em todas as eras e, portanto, nós a encontramos no pensamento de Jó. Isto também prova que não houve mudanças no Evangelho. O evangelho encontrado em Jó é o evangelho de nosso Senhor Jesus Cristo. Uma luz muito clara foi lançada sobre esta Verdade de Deus pelo dom do Espirito Santo, mas o caminho da salvação tem sido, em todos os tempos, o mesmo! Nenhum homem jamais foi salvo pelas suas boas obras. 

    a. O Evangelho não muda.

    O modo pelo qual cada justo tem vivido sempre foi pelo caminho da fé. Não houve o menor desvio desta Verdade – foi estabelecido e instituído – sempre o mesmo, como Deus o pronunciou.

    Em todos os tempos e em todos os lugares, o evangelho é e continuará sendo o mesmo. “Jesus Cristo, o mesmo ontem, hoje e eternamente”. Nós lemos “o evangelho” a partir de um, nunca dois ou três evangelhos, como muitos. Céus e terra passarão, mas a Palavra de Cristo nunca passará. 

    Também é digno de nota que esta verdade de Deus precede a Jó[9] e ainda assim continua tão imutável, e com tanta vitalidade. 

    b. Fé Contínua.

    Toda a nossa existência antes da fé em Cristo não era nada, a não ser uma forma de morte. Quando confiamos em Jesus e o confessamos como Senhor e Salvador, entramos na vida eterna e temos o nascimento vindo do alto. No entanto, o homem continua a viver diante de Deus, apegado ao Cristo e vivendo em santidade.

    Sua perseverança deve ser o resultado de uma fé contínua. A fé salvífica não é um único ato feito e acabado em um determinado dia, é um ato contínuo e persevera durante toda a vida do homem! O justo não só começa a viver sua fé, mas ele continua a viver por sua fé! Ele não começa no Espírito e termina na carne, nem vai tão longe pela graça e o resto do caminho pelas obras. "O justo viverá pela fé", diz o texto de Hebreus, "mas se alguém recuar, a minha alma não tem prazer nele. Mas nós não somos daqueles que recuam para a perdição, mas daqueles que creem para a conservação da alma”. Hb 10.38-39

    Portanto, a fé é essencial ao longo da vida cristã todo e cada dia, em todas as coisas. Nossa vida natural começa pela respiração e deve ser continuada pela respiração. O que a respiração é para o corpo, a fé é para a alma. Perseveremos na fé, pois sem fé é impossível agradar a Deus[10]. 

    Conclusão

    É esta experiência transformadora da justificação que Jó defende diante de seus acusadores. Sua confiança não era em seus atos de justiça. Em todo tempo confiava que Deus o declarará justo. Essa convicção vem da justiça que é pela fé.

    Caso Jó desistisse de sua integridade, estaria desistindo de sua consciência. Concordar com seus amigos seria afirmar que a comunhão a qual cultivara com Deus fora uma farsa, e que ao invés de ser um servo fiel, Jó era um rebelde dissimulado. Seria, portanto, contradizer a própria avaliação divina acerca de Jó, algo que Satanás não conseguiu, mas continuava insistindo.

    Mesmo sendo um homem temente a Deus e íntegro, Jó não confiava nisso para a sua salvação, pois ele sabia que a salvação é pela fé no Deus poderoso, justo e misericordioso, o qual em seu trono de glória justifica o frágil e miserável pecador. É por isso que Jó não pode retroceder. Nenhum discurso o faria desistir de sua fé, assim ele quer esculpir sua confiança em uma rocha[11] “eu sei que o meu Redentor vive”.

    Nossa redenção e justificação estão baseadas na graça de Deus, por meio da fé, manifesta em Cristo Jesus. Aleluia!

    Vagner Rodrigues | Pastor e professor de teologia.

    Referências Bibliográficas

    · Turner, Donald. D. Introdução ao Antigo Testamento. Ed. Imprensa Batista Regular. 
    · Carson, D.A. Comentário Bíblico Vida Nova. Ed. Vida Nova.
    · Bentzen, Aage. Introdução ao Antigo Testamento. Ed. Aste.
    · Pfeiffer. Charles. F. Comentário Bíblico Moody. Ed. Imprensa Batista Regular.
    · Anderson, Francis I. Jó – Introdução e Comentário. Série Cultura Cristã. Ed. Vida Nova.
    · Jackson, D.R. Clamor por Justiça. O Evangelho Segundo Jó. Ed. Cultura Cristã. SP.

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    [1] Jó 18.14-21. 
    [2] Jó 19.6, 21-22. 
    [3] Rm 1.17 “Porque nele se descobre a justiça de Deus de fé em fé, como está escrito: Mas o justo viverá da fé”. 
    [4] Geralmente é uma referência a sepultura no A.T. 
    [5]Hb 7.25 “Portanto, pode também salvar perfeitamente os que por ele se chegam a Deus, vivendo sempre para interceder por eles”. 
    [6] 2 Tm 1.10 “E que é manifesta agora pela aparição de nosso Salvador Jesus Cristo, o qual aboliu a morte, e trouxe à luz a vida e a incorrupção pelo evangelho”. 
    [7] Jó 10.8-15. 
    [8] 1 Tm 1.12-16 “E dou graças ao que me tem confortado, a Cristo Jesus SENHOR nosso, porque me teve por fiel, pondo-me no ministério; a mim, que dantes fui blasfemo, e perseguidor, e injurioso; mas alcancei misericórdia, porque o fiz ignorantemente, na incredulidade. E a graça de nosso Senhor superabundou com a fé e amor que há em Jesus Cristo. Esta é uma palavra fiel, e digna de toda a aceitação, que Cristo Jesus veio ao mundo, para salvar os pecadores, dos quais eu sou o principal. Mas por isso alcancei misericórdia, para que em mim, que sou o principal, Jesus Cristo mostrasse toda a sua longanimidade, para exemplo dos que haviam de crer nele para a vida eterna”. 
    [9] Gn 3.15 “E porei inimizade entre ti e a mulher, e entre a tua semente e a sua semente; esta te ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar”. 
    [10] Hb 11.6 “Ora, sem fé é impossível agradar-lhe; porque é necessário que aquele que se aproxima de Deus creia que ele existe, e que é galardoador dos que o buscam”. 
    [11] Jó 19.24-25.


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