• "O verdadeiro evangelho exalta a Deus... Se camuflado a excelência perderá!"

    O EVANGELHO NO LIVRO DE JÓ | Parte IV




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    O EVANGELHO NO LIVRO DE JÓ | Vagner Rodrigues

    O Evangelho Segundo Jó – Constituindo um Mediador


    ​“Já agora sabei que a minha testemunha está no céu, e, nas alturas, quem advoga a minha causa” Jó 16.19.

    Os discursos proferidos por Elifaz, Bildade e Zofar consistiam em acusações contra a integridade de Jó. As suas palavras deveriam vir de consolo, ante ao estado em que ele se encontrava, no entanto, seus amigos, haviam se tornado em consoladores molestos[1]. 

    No estado em que Jó se encontrava; as palavras de suas pretensas sabedorias eram “palavras ao vento”, cujo conteúdo era completamente irreal e sem objetivo. Pois é fácil falar; quando a dor é no outro; quando as circunstâncias da vida gritam mais alto que qualquer pretensa sabedoria de consolo.

    O falso evangelho dos amigos de Jó não trazia boa nova, pois não falava retamente de Deus, em Jó 42.7 está escrito: “Sucedeu que, acabando o SENHOR de falar a Jó aquelas palavras, o SENHOR disse a Elifaz, o temanita: A minha ira se acendeu contra ti, e contra os teus dois amigos, porque não falastes de mim o que era reto, como o meu servo Jó”.

    O verdadeiro Evangelho é a boa nova de Deus, acerca dEle, para o homem pecador; e Jó, ao contrário de seus amigos, sabia disso. Portanto, precisamos reconhecer em Jó ideias que apontam para além do Antigo Testamento, especialmente o anseio reiterado de Jó por um mediador e sua esperança desesperada na ressurreição pessoal[2].

    Nesta parte destacaremos algumas verdades do Evangelho inseridas no pensamento de Jó.

    1. A Necessidade de um Mediador.


    Porque há um só Deus, e um só Mediador entre Deus e os homens, Jesus Cristo homem”. 1Tm 2.5

    Jó entendia que precisava comparecer diante de Deus, porém ele sabia que estar diante de Deus seria algo apavorante, pois por mais íntegro[3] e justo que fosse um homem, não poderia se encontrar face a face com o Eterno[4]. Todo encontro entre o Criador e a criatura, somente é possível, pela mediação do Filho de Deus. E, por que precisamos de um Mediador?

    Vejamos duas razões principais.

    a. Somos pecadores.

    Porque todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus”. Rm 3.23

    O fato é que existe um abismo espiritual e moral entre Deus e nós, criado pelo pecado humano. Por nosso próprio esforço moral, somos incapazes de nos opor ao nosso pecado, de nos conduzir, por nós mesmos, ao caminho para Deus. 

    Para ter comunhão com Deus, precisamos ser unidos a Ele por meio de um mediador. Isto foi realizado pela encarnação do Logos[5], em que a divindade e a humanidade foram unidas em uma pessoa, Jesus Cristo. 

    b. Deus é Santo.

    Não há santo como o SENHOR; porque não há outro fora de ti; e rocha nenhuma há como o nosso Deus”. 1Sm 2.2

    O abismo não é meramente moral e espiritual, mas, também, ontológico[6]. Deus é santo por natureza e o homem pecador por natureza. Somente em Jesus, o perfeito Mediador, esse abismo é transponível. 

    2. Uma Testemunha Celestial.


    ​“Já agora sabei que a minha testemunha está no céu, e, nas alturas, quem advoga a minha causa” Jó 16.19.

    As insinuações dos amigos não conseguiram fazer Jó separar-se da sua convicção de integridade. Agora nem as suas mais escuras dúvidas, nem os seus mais terríveis temores podem fazê-lo desistir de comparecer no tribunal de Deus. 

    Mas ele precisa de alguém para pleitear a sua causa, alguém para testemunhar em seu favor. Em Jó 9.14-15 está escrito: “Quanto menos lhe responderia eu, ou escolheria diante dele as minhas palavras! Porque, ainda que eu fosse justo, não lhe responderia; antes ao meu Juiz pediria misericórdia”. 

    Assim, Jó se deu conta de que para apresentar sua causa diante do tribunal de Deus era necessária uma Testemunha no céu.

    a. O Apelo. 

    Dolorosamente ele apela para essa testemunha celestial suplicando-lhe que defenda a sua causa ante as insinuações dos amigos e dos terríveis golpes que Deus lhe desferiu. Deus que é responsável pelas suas aflições na terra. "Os meus olhos se desfazem em lágrimas diante de Deus; ah, se alguém pudesse fazer prevalecer à justiça da causa do homem perante Deus e a do filho do homem perante e seu próximo!" (Jó 16. 20b-21). 

    Mesmo não conhecendo a cena celestial, onde aconteceu à demanda satânica, Jó sabia que havia uma animosidade contra ele. E Jó não precisava saber que foi o Diabo quem propôs e executou os males. Pois, na verdade, ele cria num Deus Soberano, não num Diabo soberano. Afinal de contas, quem é o Diabo? Pode ele agir sem a permissão do Deus Altíssimo? Tem ele poder para tocar em alguém sem que o Soberano Senhor antes não tenha dito: “Eis que ele está em teu poder?”. O apóstolo Pedro, em Lucas 22.31-34, seria também alvejado por Satanás, que intentava, conforme Jesus, “vos peneirar como trigo”. 

    Deus é soberano, aquele que disse que nenhum único fio de cabelo cai de nossas cabeças sem o consentimento dEle: 

    Portanto, não os temais; porque nada há encoberto que não haja de revelar-se, nem oculto que não haja de saber-se. O que vos digo em trevas dizei-o em luz; e o que escutais ao ouvido pregai-o sobre os telhados. E não temais os que matam o corpo e não podem matar a alma; temei antes aquele que pode fazer perecer no inferno a alma e o corpo. Não se vendem dois passarinhos por um ceitil? E nenhum deles cairá em terra sem a vontade de vosso Pai. E até mesmo os cabelos da vossa cabeça estão todos contados”. (Mt 10:26-30). 

    Este apaixonado apelo por uma testemunha celestial que estivesse do seu lado, como seu intercessor, aponta, de maneira impressionantemente profética, para Jesus Cristo, o qual é a nossa Testemunha diante do Pai. Em Romanos 8.34, o apóstolo Paulo escreve: “Quem é que condena? Pois é Cristo quem morreu, ou antes, quem ressuscitou dentre os mortos, o qual está à direita de Deus, e também intercede por nós”.

    3. Um Advogado Celestial.


    “Meus filhinhos, estas coisas vos escrevo, para que não pequeis; e, se alguém pecar, temos um Advogado para com o Pai, Jesus Cristo, o justo. E ele é a propiciação pelos nossos pecados, e não somente pelos nossos, mas também pelos de todo o mundo”. 1Jo 2.1-2

    Nos seus discursos, Jó argumenta alternadamente com os amigos e com Deus e sente a necessidade de alguém para ajudá-lo nas duas frentes, um Advogado Celestial.

    O pensamento cristão de "um Advogado para com o Pai, Jesus Cristo, o justo" é a fé a percepcionar a existência de um Deus que "é por nós". 

    Por isso, a Escritura nos incentiva a, por meio de Jesus Cristo, fazer uso confiante do acesso ao Pai e comparecer ante ao trono da Graça. Aos Hebreus 10.19-23 está escrito: “Tendo, pois, irmãos, ousadia para entrar no santuário, pelo sangue de Jesus, Pelo novo e vivo caminho que ele nos consagrou, pelo véu, isto é, pela sua carne, E tendo um grande sacerdote sobre a casa de Deus, Cheguemo-nos com verdadeiro coração, em inteira certeza de fé, tendo os corações purificados da má consciência, e o corpo lavado com água limpa, retenhamos firmes a confissão da nossa esperança; porque fiel é o que prometeu”. 

    a. Ele é a nossa Propiciação.

    É nítida a percepção profética de Jó quanto ao Juiz-Advogado Divino que propicia o pecado do homem. "Pro­piciar" alguém significa apaziguar ou pacificar a sua ira. 

    Em Romanos 3.25, Paulo escreve: “Ao qual Deus propôs para propiciação pela fé no seu sangue, para demonstrar a sua justiça pela remissão dos pecados dantes cometidos, sob a paciência de Deus”.

    No Novo Testamento o pensamento que permeia a Escritura é de que o homem é alienado de Deus pelo pecado e Deus é alienado do homem pela sua santa ira. É na morte substitutiva de Cristo que o pecado é vencido e a ira des­viada, de modo que Deus possa olhar para o homem sem desagrado, e o homem olhar para Deus sem medo. O pe­cado é expiado, e Deus propiciado. 

    Portanto, é o próprio Deus que, em ira santa, necessita ser propiciado, o próprio Deus que, em santo amor, resolveu fazer a propiciação, e o próprio Deus que, na pessoa do seu Filho, morreu pela propiciação dos nossos pecados. Deste modo, Deus to­mou a iniciativa amorosa de apaziguar sua própria ira justa levando-a em seu próprio Filho, Jesus Cristo, ao tomar o nosso lugar e morrer em nosso favor. Aleluia!

    4. Um Fiador Celestial.


    Dá-me, pois, um penhor; seja o meu fiador para contigo mesmo; quem mais haverá que se possa comprometer comigo”? Jó 17.3

    Jó apela confiante a Deus, para receber um veredito favorável na sua disputa com os amigos e com o próprio Deus, usando uma figura de linguagem extraída das práticas comerciais. O penhor é algum sinal material do compromisso para completar alguma transação comercial[7]. 

    a. Penhor do Espírito.

    É o termo usado pelo apóstolo Paulo em Efésios 1.14: “O qual é o penhor da nossa herança, para redenção da possessão adquirida, para louvor da sua glória”. Esse mesmo termo é usado mais duas vezes em outra epístola[8]. A metáfora é tomada por empréstimo das transações que são confirmadas pela entrega de uma garantia, para que não se deixe qualquer espaço a uma mudança de intenção.

    Quando recebemos o Espírito Santo, temos as promessas de Deus confirmadas em nós. Não que as promessas de Deus sejam débeis, mas porque jamais descansaríamos se não tivéssemos a corroboração do testemunho do Espírito[9].

    O Espírito, pois, é o penhor de nossa herança, ou seja, da vida eterna; para a redenção se consumar, quando Jesus vier buscar a sua igreja. Aleluia!

    b. “Deus contra Deus”.

    Ah! se alguém pudesse contender com Deus pelo homem, como o homem pelo seu próximo”! Jó 16.21

    Um Fiador é aquele que responde em favor do outro. Como Jó não entendia o que Deus lhe estava fazendo, ele constitui Deus seu Fiador contra Deus. Ele sabia que a sua calamidade, Deus havia permitido, sabia também que tais circunstâncias não eram efeitos de uma causa moral, pois Deus é Deus de Graça. Mas, ante a perplexidade do seu sofrimento Jó não entendia por quais razões as flechas do Todo-Poderoso lhe atingiam e, assim, ele apela para Deus o único que pode contender com Deus em favor do homem.

    A Cruz de Cristo revela-nos esse embate, onde Deus pune os nossos pecados no Justo, derramando sua ira sobre Ele[10].

    E como não entende as reações de seus amigos, os quais o acusam de pecado, ele constitui Deus seu Fiador contra o seu próximo.

    Esta esperança acha sua realização em Jesus, o Messias. Nesse contexto mais antigo da Sua auto revelação, o Deus que perdoa e salva pode ser visto por detrás do Criador e Juiz.

    Conclusão

    A convicção da mediação de Jesus Cristo é a verdade que nos dá conforto em nossos mais agudos momentos de aflição. Mesmo quando nossa fé vacilar, devemos nos lembrar do que disse nosso Senhor Jesus: “Não se turbe o vosso coração; credes em Deus, crede também em mim. Na casa de meu Pai há muitas moradas; se não fosse assim, eu vo-lo teria dito. Vou preparar-vos lugar. E quando eu for, e vos preparar lugar, virei outra vez, e vos levarei para mim mesmo, para que onde eu estiver estejais vós também[11]”.

    Vagner Rodrigues | Pastor e professor de teologia.

    Referências Bibliográficas

    · Turner, Donald. D. Introdução ao Antigo Testamento. Ed. Imprensa Batista Regular. 
    · Carson, D.A. Comentário Bíblico Vida Nova. Ed. Vida Nova.
    · Bentzen, Aage. Introdução ao Antigo Testamento. Ed. Aste.
    · Pfeiffer. Charles. F. Comentário Bíblico Moody. Ed. Imprensa Batista Regular.
    · Anderson, Francis I. Jó – Introdução e Comentário. Série Cultura Cristã. Ed. Vida Nova.
    · Jackson, D.R. Clamor por Justiça. O Evangelho Segundo Jó. Ed. Cultura Cristã. SP.

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    [1] Jó 16.2.
    [2] Jó 19.25-26.
    [3] Ser íntegro não significa ausência de pecado, mas, ser consciente de que o pecado habita a minha natureza humana, e, que somente pela Graça de Deus posso resisti-lo.
    [4] Êx 33.20 “E disse mais: Não poderás ver a minha face, porquanto homem nenhum verá a minha face, e viverá”.
    [5] Jo 1.1-14.
    [6] Diz respeito ao ser e a natureza de Deus.
    [7] Gn 38.18.
    [8] 2Co 1.22; 5.5.
    [9] Rm 8.16 “O mesmo Espírito testifica com o nosso espírito que somos filhos de Deus”.
    [10] 2Co 5.21; Is 53.
    [11] João 14.1-3.

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