• "O verdadeiro evangelho exalta a Deus... Se camuflado a excelência perderá!"

    O EVANGELHO NO LIVRO DE JÓ | Parte III




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    O EVANGELHO NO LIVRO DE JÓ | Vagner Rodrigues


    O Evangelho Segundo Zofar


    Se há iniquidade na tua mão, lança-a para longe de ti e não deixes habitar a injustiça nas tuas tendas”. Jó 11.14

    Zofar, o naamatita, era originário de um lugar incerto em Edom, possivelmente na parte sul do território, perto de Elá ou Elote, foi o ultimo dos três amigos a falar neste primeiro ciclo de discursos. O nome Zofar significa áspero, rude; a sua linguagem comprova e dá a entender que o seu nome é conforme o seu procedimento.


    Zofar não se preocupa em tratar bem ou convencer a Jó com provas, experiências ou narrativas. De modo abrupto, ele chama Jó de tagarela e sua defesa de palavrório: “Porventura não se dará resposta à multidão de palavras? E o homem falador será justificado? Às tuas mentiras se hão de calar os homens? E zombarás tu sem que ninguém te envergonhe”?


    Semelhante a Elifaz e Bildade o que importa a ele é demonstrar que Jó está sofrendo porque é um pecador secreto, que a sua integridade era apenas aparente.

    Novamente percebemos no discurso de Zofar, tal qual nos outros amigos, uma visão distorcida de Deus e, portanto, uma falsificação do Evangelho.

    Em que consiste o evangelho segundo Zofar? Vejamos alguns princípios.


    1. Um evangelho racionalista.



    Em sua visão simplista, os justos são bem-aventurados[1] e os ímpios sofrem[2]. Jó está sofrendo porque é ímpio e o seu sofrimento é menor do que ele merece. Seu pecado secreto foi, agora, julgado por Deus. Desse modo, a solução para a calamidade de Jó era simples. Jó deveria se arrepender, confessando que seus atos eram ímpios, e se recusando a dar abrigo à injustiça. Procedendo assim, sua condição calamitosa seria transformada.

    a. Mente sem mentalidade do evangelho.


    Zofar é movido por seus próprios pensamentos, fala e age conforme o seu entendimento, em Jó 20.2-3 ele se expressa: “Visto que os meus pensamentos me fazem responder, eu me apresso. Eu ouvi a repreensão, que me envergonha, mas o espírito do meu entendimento responderá por mim”.

    O falso evangelho racionalista é aquele que representa algumas pessoas, as quais colocam os seus achismos acima do Evangelho: “Eu acho”, “Eu penso”, “Eu não acredito”, sem qualquer base bíblica, passam a pregar, ensinar, defender e viver o que entendem sobre o evangelho, mas não o que o Evangelho propriamente ensina.

    Com base nos preceitos da razão, há muitas pessoas negando a própria mensagem bíblica e chamando de vontade de Deus aquilo que não passa de sua própria vontade, ou mesmo o que é nitidamente condenado pela Palavra de Deus.

    Para tais pessoas o critério para a verdade é a sua opinião. Hoje quão pertinente é essa mensagem, pois vivemos tal realidade no evangelicalismo brasileiro, pessoas e grupos pseudocristãos defendendo o homossexualismo, o aborto, o casamento homoafetivo, negando a deidade de Jesus e etc.

    Todavia, quem anda no Evangelho de Jesus, não anda segundo seu próprio entendimento ou pensamento, mas nEle, tendo a sua mente, como diz o apóstolo Paulo escrevendo aos Coríntios na primeira carta: 

    Ora, o homem natural não compreende as coisas do Espírito de Deus, porque lhes parecem loucura; e não pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente. Mas o que é espiritual discerne bem tudo, e ele de ninguém é discernido. Porque, quem conheceu a mente do SENHOR, para que possa instruí-lo? Mas nós temos a mente de Cristo”[3].

    Em Cristo, no Evangelho da Graça e nesse amor Divino que nos molda a imagem de seu Filho[4], somos renovados em nosso entendimento, conforme Romanos 12.2: “E não sede conformados com este mundo, mas sede transformados pela renovação do vosso entendimento, para que experimenteis qual seja a boa, agradável, e perfeita vontade de Deus”.

    b. Coração que não abriga o Evangelho.

    Se tu preparares o teu coração, e estenderes as tuas mãos para ele”; Jó 11.13.

    Para indivíduos como Zofar, a razão é árbitra da verdade, esse entendimento reduz o evangelho a uma correlação de causa e efeito, o conhecido provérbio popular: “Aqui se faz aqui se paga”. Mas essa é uma visão antibíblica, a qual não leva em consideração o todo da Palavra de Deus.

    Nesse tipo de evangelho, não há espaço para a Graça de Deus, para a Redenção em Cristo, para a surpreendente misericórdia divina que é loucura à ciência e escândalo à religião, conforme o apóstolo Paulo diz em 1 Coríntios 1.18-21: 

    Porque a palavra da cruz é loucura para os que perecem; mas para nós, que somos salvos, é o poder de Deus. Porque está escrito: Destruirei a sabedoria dos sábios, E aniquilarei a inteligência dos inteligentes. Onde está o sábio? Onde está o escriba? Onde está o inquiridor deste século? Porventura não tornou Deus louca a sabedoria deste mundo? Visto como na sabedoria de Deus o mundo não conheceu a Deus pela sua sabedoria, aprouve a Deus salvar os crentes pela loucura da pregação”.

    O entendimento sem consonância a Escritura é vão. Devemos também evitar, com veemência um evangelho onde a referência absoluta da verdade de Deus seja o coração, as emoções e os sentimentos. O profeta Jeremias revela em 17.9: “Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e perverso; quem o conhecerá”?

    Quantos de nós testemunhamos experiências de pessoas que tomaram decisões, fizeram escolhas porque “sentiram de Deus”, ou firmados em alguma experiência mística[5], como aconteceu com Elifaz em Jó 4.15: “Então um espírito passou por diante de mim; fez-me arrepiar os cabelos da minha carne”. Nesse caso um “arrepio” se torna mais validador da verdade que a misericórdia e o bom-senso.

    Um entendimento sem a mente de Cristo e um coração sem a vida no Evangelho são nulos. Porém, nós temos a mente de Cristo e um coração regenerado pelo Espírito Santo[6].


    2. Um Evangelho Parcial.



    Zofar chega a dizer: “E te fizesse saber os segredos da sabedoria, que é multíplice em eficácia; sabe, pois, que Deus permite que alguns dos teus pecados sejam esquecidos[7]”. Jó 11.6.

    Quando se tem uma visão distorcida de Deus, não há possibilidade de uma redenção total; o “deus” de Zofar não pode redimir (esquecer) todos os pecados de Jó, porém apenas alguns. No evangelho parcial de Zofar o perdão é parcelado e vai sendo quitado de acordo com o comportamento moral do pecador. 

    a. Graça Deficiente

    Tendo cuidado de que ninguém se prive da graça de Deus...” Hb 12.15a 

    Essa visão zofariana[8], na melhor das hipóteses, prega uma “Graça Deficiente”, pois pode “cobrir apenas parte da iniquidade”. Esse falso evangelho priva o pecador da eficácia da Graça de Deus em Cristo. O resultado desse pensamento é a negação da justificação baseada nos méritos de Cristo[9]. 

    Todavia, as Escrituras afirmam com veemência que fomos redimidos de nossos pecados pelo sangue do Cordeiro de Deus, e não parte deles. Em Efésios 1.7, está escrito:

    Em quem temos a redenção pelo seu sangue, a remissão das ofensas, segundo as riquezas da sua graça”.

    b. Graça Parcelada

    O fato evidente suscitado por essa reflexão é de que infelizmente no cotidiano de alguns círculos evangélicos ainda permeia a mentalidade de que o perdão de Deus cancelou os pecados cometidos antes da conversão somente, os posteriores são por conta do esforço pecador. 

    Portanto, para muitos no meio cristão esse “pagamento”, em geral, acontece apenas na “chegada”, ou seja, quando da conversão - passando o crente a ter que bancar a “outra parte” de sua natureza e iniquidade. Em outras palavras: a teologia de Zofar ainda é a voz teológica predominante daqueles que não conhecem o Deus Todo~Gracioso[10]. 

    Conclusão

    O falso evangelho de Zofar exalta o conhecimento e as realizações humanas. Ele não procura a Glória de Deus, porém procura fabricar um deus que aprove às exigências humanas. Portanto, esse falso evangelho é abundantemente prejudicial à saúde de nossa vida espiritual. 

    No desejo de salvarem a si mesmos, os homens criam seus próprios meios de salvação e desprezam a salvação concedida por Deus em Cristo Jesus.

    Esse veneno não pode contaminar aqueles que foram lavados e remidos pelo sangue de Jesus e em cujas consciências o Espirito Santo fez resplandecer a Glória de Deus.

    Assim, devemos estar atentos para identificar o constante assédio e as muitas formas do falso evangelho em nosso meio. Qualquer evangelho que pretenda ser evangelho sem a Graça, sem Cristo e sem a Cruz, seja anátema!

    Maravilho-me de que tão depressa passásseis daquele que vos chamou à graça de Cristo para outro evangelho; o qual não é outro, mas há alguns que vos inquietam e querem transtornar o evangelho de Cristo. Mas, ainda que nós mesmos ou um anjo do céu vos anuncie outro evangelho além do que já vos tenho anunciado, seja anátema. Assim, como já vo-lo dissemos, agora de novo também vo-lo digo. Se alguém vos anunciar outro evangelho além do que já recebestes, seja anátema”. Gl 1.6-9.

    Vagner Rodrigues | Pastor e professor de teologia.

    Referências Bibliográficas

    · Turner, Donald. D. Introdução ao Antigo Testamento. Ed. Imprensa Batista Regular. 
    · Carson, D.A. Comentário Bíblico Vida Nova. Ed. Vida Nova.
    · Bentzen, Aage. Introdução ao Antigo Testamento. Ed. Aste.
    · Pfeiffer. Charles. F. Comentário Bíblico Moody. Ed. Imprensa Batista Regular.
    · Anderson, Francis I. Jó – Introdução e Comentário. Série Cultura Cristã. Ed. Vida Nova.

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    [1] Jó 11.13-19.
    [2] Jó 20.5-29.
    [3] 1Co2.14-16.
    [4] Romanos 8.29.
    [5] Com isso não estou negando as experiências místicas genuínas, mas apenas ressaltando que a experiência humana ainda que legítima deve ser relativizada ante o absoluto da verdade das Escrituras.
    [6] Tito 3.5.
    [7] Almeida Século 21.
    [8] Com esta expressão quero dizer: segundo Zofar.
    [9] Rm 3.24-25 “Sendo justificados gratuitamente pela sua graça, pela redenção que há em Cristo Jesus. Ao qual Deus propôs para propiciação pela fé no seu sangue, para demonstrar a sua justiça pela remissão dos pecados dantes cometidos, sob a paciência de Deus”.
    [10] Ef 2.8-9 “Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus. Não vem das obras, para que ninguém se glorie”.

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