• "O verdadeiro evangelho exalta a Deus... Se camuflado a excelência perderá!"

    O EVANGELHO NO LIVRO DE JÓ | Parte II



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    O EVANGELHO NO LIVRO DE JÓ | Vagner Rodrigues

    O Evangelho Segundo Bildade 


    Texto Básico: Até quando falarás tais coisas, e as palavras da tua boca serão como um vento impetuoso? Porventura perverteria Deus o direito? E perverteria o Todo-Poderoso a justiça?” Jó 8.2-3. 



    O segundo amigo a discursar a Jó é Bildade. Também não possuímos muitas informações acerca de Bildade. Limita-se a Bíblia a informar que este amigo de Jó era um suíta (Jó 2.11). Certamente morava em Canaã, onde Suá, à semelhança de Temã, era um daqueles pequenos reinos ali estabelecidos.



    No Livro de Jó, temos três discursos de Bildade, que se encontram nos capítulos 8, 18 e 25. Sua visão de Deus e do Evangelho é semelhante à de Elifaz[1] e seu julgamento acerca do sofrimento de Jó. 

    Bildade é objetivo e analítico no seu discurso acerca de Deus e do homem. Como resultado, é um pensador esmerado, porém superficial. Num momento de tamanha insensibilidade, ante o sofrimento do amigo, sugere que a causa de todo aquele sofrimento é o justo castigo contra o pecado dos filhos de Jó (Jó 8.4).

    Mas em que consiste o “evangelho segundo Bildade”? Qual a natureza do pensamento dele, sobre a relação entre Deus e o homem? A lição de hoje objetiva trazer luz ao nosso entendimento sobre os princípios desse falso evangelho que contrasta com o Evangelho da Graça de Deus revelado em Cristo.

    Vejamos:


    1. Um evangelho baseado no esforço Moral.




    Para Bildade, é inadmissível que Deus fizesse mal, ou seja, permitisse o mal a um homem justo:



    Eis que Deus não rejeitará ao reto; nem toma pela mão aos malfeitores. Até que de riso te encha a boca, e os teus lábios de júbilo. Os que te odeiam se vestirão de confusão, e a tenda dos ímpios não existirá mais”. Jó 8.20-22


    Bildade é um moralista, e na sua visão simplista tudo pode ser explicado em termos de dois tipos de homem. O inculpável (v. 20a; usado para Jó em 1.1) e o secretamente pecador (v. 13b). Embora pareçam externamente iguais, Deus faz distinção entre eles ao dar prosperidade a um e destruir ao outro. 

    Sugerir que alguma vez já aconteceu doutra maneira, é lançar dúvida sobre a justiça de Deus. E isso, conforme Bildade é o que Jó está fazendo. Por isso, pergunta:

    Porventura perverteria Deus o direito? E perverteria o Todo-Poderoso a justiça”? Jó 8.3.

    a. Redenção Pessoal.

    O discurso moralista de Bildade não encontra guarida no coração de Jó, o qual não faz confissão de pecados, contra a sua própria consciência. 

    Então Bildade inverte suas acusações e, assim, afirma que o sofrimento de Jó vinha dos pecados de seus filhos. 

    Se teus filhos pecaram contra Ele, também ele os lançou na mão da sua transgressão”. Jó 8.4

    É como o avô sofrer pelos pecados dos netos (8.4-7), ou os filhos terem que pagar pelos pecados do pai. Ou seja, nesse entendimento a redenção dos pecados é baseada no sofrimento de geração para geração, portanto uma redenção pessoal, dependente da moral humana. No entanto, a palavra de Deus ressalta a inaptidão moral do homem e sua incapacidade de autoredenção[2]. 

    Somente Deus, em sua infinita Graça, revelada no Evangelho, “paga” o preço pelos pecados dos filhos, ou seja, dos homens. A salvação-redenção é dádiva de Deus.

    Quem mais? No evangelho de Bildade o sofrimento de Jó tinha um papel vicário-redentor. Que insulto ao verdadeiro Evangelho!

    O apóstolo Paulo diz:

    Sendo justificados gratuitamente pela sua graça, pela redenção que há em Cristo Jesus. Ao qual Deus propôs para propiciação pela fé no seu sangue, para demonstrar a sua justiça pela remissão dos pecados dantes cometidos, sob a paciência de Deus”. Rm 3.24-25


    2. Um evangelho baseado nas obras.




    Se fores puro e reto, certamente logo despertará por ti, e restaurará a morada da tua justiça”. Jó 8.6



    No evangelho de Bildade a salvação é uma conquista do homem, pelo homem. Ou seja, a salvação é conquistada mediante o mérito humano, baseada nas obras. 


    a. Obras da Religião.

    Esse tipo de evangelho é o mesmo do fariseu em Lucas 18.9-14, o qual se vangloriava de suas obras, e de sua religiosidade: “Ó Deus, graças te dou porque não sou como os demais homens, roubadores, injustos e adúlteros; nem ainda como este publicano. Jejuo duas vezes na semana, e dou os dízimos de tudo quanto possuo”. 

    Esta é a proposta da religião que é pelas obras, de alcançar o bem-estar espiritual por meio daquilo que fazemos. Mas a palavra de Deus nos diz:

    Mas todos nós somos como o imundo, e todas as nossas obras como trapo da imundícia; e todos nós murchamos como a folha, e as nossas iniquidades como um vento nos arrebatam”. Is 64.6

    Contrapondo esta proposta está o “evangelho do publicano”, que é evangelho genuíno, pelo simples fato de que reconhece em lamento, a miséria de sua própria condição humana, que se percebe pecador e não levanta altivamente os olhos ao céu, mas mergulha no âmago da misericórdia Divina. Aleluia! 

    Quero deixar claro que em nenhum momento estou afirmando um Evangelho sem obras[3], mas ressaltando que mesmo as nossas obras, quando realizadas em Cristo, são resultantes da Graça de Deus. 

    As obras não se constituem em mérito para o homem pecador, porém como fruto da Graça Divina, a fim de que o homem não se vanglorie em si mesmo, todavia em Cristo. 

    A aparente contradição na Epístola de Tiago 2.14-18, como disse é apenas aparente, pois o que Tiago está afirmando pelo contexto é a verdade inconteste do Evangelho, no qual a fé genuína se evidencia no amor e na misericórdia para com o próximo. A fé genuína nos impele as boas obras, porém as boas obras não nos conduzem a fé. E, é exatamente essa fé a qual resulta em boas obras, que nos é imputada como meio de justificação.

    Em Efésios 2.8-10, o apóstolo Paulo revela-nos: 

    Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus. Não vem das obras, para que ninguém se glorie; porque somos feitura sua, criados em Cristo Jesus para as boas obras, as quais Deus preparou para que andássemos nelas”. 

    b. O Mandamento e o Legislador.

    O evangelho de Bildade é aquele que as pessoas se esforçam para ser aceitáveis a Deus. Conhecem tudo acerca de Deus, contudo não conhecem a Deus. Esmeram-se nas tradições, nos mandamentos, todavia seus corações estão distante do Senhor. Conhecem o mandamento, no entanto, não conhecem o Legislador. Como disse o profeta Isaías em 29.13: 

    Porque o Senhor disse: Pois que este povo se aproxima de mim, e com a sua boca, e com os seus lábios me honra, mas o seu coração se afasta para longe de mim e o seu temor para comigo consiste só em mandamentos de homens, em que foi instruído”.

    O evangelho de Bildade pergunta: o que farei de bom para ser salvo[4]? O Evangelho de Jesus diz: 

    Na verdade, na verdade te digo que aquele que não nascer da água e do Espírito, não pode entrar no reino de Deus. O que é nascido da carne é carne, e o que é nascido do Espírito é espírito. Não te maravilhes de te ter dito: Necessário vos é nascer de novo”. Jo 3.5-7


    3. Um evangelho manipulado.




    Pois, eu te peço, pergunta agora às gerações passadas; e prepara-te para a inquirição de seus pais. Porque nós somos de ontem, e nada sabemos; porquanto nossos dias sobre a terra são como a sombra. Porventura não te ensinarão eles, e não te falarão, e do seu coração não tirarão palavras”? Jó 8.8-10



    Bildade tem um relacionamento distante com Deus, seu apelo agora é a experiência das gerações passadas, e não as suas próprias experiências com Deus. Para ele, Deus é um conceito estudado em manuais e toado por um conjunto de normas. Só agindo em conformidade com o comportamento humano, por isso castiga o ímpio e recompensa o justo.


    O que seria de nós pecadores se o Senhor agisse como entendia Bildade? Certamente estaríamos perdidos, mas o Deus do evangelho é grande demais e não pode ser manipulado por comportamentos morais. Ele é graciosamente Livre para agir com Graça. “Mas Deus prova o seu amor para conosco, em que Cristo morreu por nós, sendo nós ainda pecadores”. Rm 5.8


    a. A Experiência Humana revela Recompensa.




    Ele aconselha Jó a ouvir a experiência dos “pais” como prova de sua visão de Deus, na qual o justo é sempre recompensado pela sua justiça e o ímpio é sempre castigado pela sua injustiça.



    No entanto, A “experiência dos pais”, quando não manipulada, nos ensina o oposto: que tanto os bons quanto maus podem ser alcançados pela calamidade. Assim como o oposto também é verdadeiro. O escritor sacro de Eclesiastes diz:


    Tudo sucede igualmente a todos; o mesmo sucede ao justo e ao ímpio, ao bom e ao puro, como ao impuro; assim ao que sacrifica como ao que não sacrifica; assim ao bom como ao pecador; ao que jura como ao que teme o juramento”. 

    A existência debaixo do sol, ou seja, a experiência desta vida não é palco final de qualquer acerto de contas. O Dia da Luz nem sempre começa sob a Luz do Sol.

    A grande questão aqui é a verdade insofismável[5], de que o universo da alma humana não pode ser regido por leis exatas, nossa humanidade é complexa e, portanto, a experiência do homem debaixo do sol, não pode ser explicada com simplismos. 

    Conclusão

    Este é o evangelho de Bildade. É útil como um guia geral para a vida; mas é superficial, e até mesmo cruel, quando os justos são os que estão experimentando a calamidade. Há muito, Jó desistira da classificação simplista de Bildade entre bons e maus. Sabe que todos os homens são pecadores, inclusive ele mesmo, ele não cometia o delírio de crer que a sua justiça tinha um valor absoluto diante de Deus que é Todo-Santo. 

    Espera na bem-aventurança de Deus mediante a Graça do perdão (Jó 7.21). 

    Por fim a declaração de Bildade de que Deus não rejeita ao integro[6] torna-o precursor daqueles que zombavam de Jesus com a mesma lógica: “Confiou em Deus; pois venha livrá-lo agora” (Mt 27.43). 


    Vagner Rodrigues | Pastor e professor de teologia.



    Referências Bibliográficas:



    · Turner, Donald. D. Introdução ao Antigo Testamento. Ed. Imprensa Batista Regular. 

    · Carson, D.A. Comentário Bíblico Vida Nova. Ed. Vida Nova.
    · Bentzen, Aage. Introdução ao Antigo Testamento. Ed. Aste.
    · Pfeiffer. Charles. F. Comentário Bíblico Moody. Ed. Imprensa Batista Regular.
    · Anderson, Francis I. Jó – Introdução e Comentário. Série Cultura Cristã. Ed. Vida Nova.

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    [1] Jó 25.2-5.
    [2] Rm 3.9-18; 3.23; 6.23.
    [3] Tt 2.14 “O qual se deu a si mesmo por nós para nos remir de toda a iniquidade, e purificar para si um povo seu especial, zeloso de boas obras”.
    [4] Mt 19.16.
    [5] Aquilo que é claro, evidente.
    [6] Jó 8.20a.


    2 comentários:

    1. temos tanto legalismo em nosso meio que até parece que não ouviram ou creram no evangelho de Jesus
      Tt 2.14 “O qual se deu a si mesmo por nós para nos remir de toda a iniquidade, e purificar para si um povo seu especial, zeloso de boas obras”.

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    2. temos tanto legalismo em nosso meio que até parece que não ouviram ou creram no evangelho de Jesus
      Tt 2.14 “O qual se deu a si mesmo por nós para nos remir de toda a iniquidade, e purificar para si um povo seu especial, zeloso de boas obras”.

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