• "O verdadeiro evangelho exalta a Deus... Se camuflado a excelência perderá!"

    O EVANGELHO NO LIVRO DE JÓ | Parte I



    O pastor Vagner Rodrigues nos presenteia com uma série de textos no livro de Jó. Postaremos um por semana. Nos primeiros 3 textos ele abordará a visão de um falso evangelho segundo os amigos de Jó. Nos demais ele apresentará o evangelho autêntico vivenciado por Jó. Assine aqui nosso newsletter para não perder nenhuma postagem.        


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    O EVANGELHO NO LIVRO DE JÓ | Vagner Rodrigues


    O Evangelho Segundo Elifaz

    Texto Básico:Não pelas obras de justiça que houvéssemos feito, mas, segundo a sua misericórdia, nos salvou pela lavagem da regeneração e da renovação do Espírito Santo”. Tt 3.5


    Nas últimas décadas o evangelicalismo brasileiro tem sucumbido ante ao sincretismo religioso[1] e a falsos ensinos acerca do Evangelho. O Evangelho genuíno pregado por Jesus e pelos apóstolos tem sido distorcido em detrimento de uma mensagem vazia de Cristo e absurdamente antropocêntrica[2].

    Todavia, essa realidade que permeia o evangelicalismo em nossos dias, não é característica única do nosso tempo, o Evangelho Verdadeiro[3] sempre esteve em conflito com o falso evangelho no decorrer da história do relacionamento de Deus com o homem. A calamidade pessoal de Jó e a interpretação que seus “amigos” fazem da mesma, refletem essa verdade.

    O primeiro “amigo” a se pronunciar, após sete dias e noites de quase luto, foi Elifaz. Provavelmente, ele era de Temã, possível território de Edom, talvez o mais velho dos amigos de Jó, pois falou primeiro e era costume o mais velho falar em primeiro lugar. Seu nome, em hebraico, significa: “Meu Deus é forte”.

    Abordarei o entendimento de Elifaz acerca do sofrimento de Jó e, qual a sua percepção ante a calamidade do homem íntegro e reto, que era Jó. Portanto, chamarei tal percepção de um “evangelho segundo Elifaz” e o contraste desse evangelho com o Evangelho da Graça.

    Mas, em que consiste o “evangelho de Elifaz”?

    Vejamos algumas verdades sobre o falso evangelho de Elifaz.

    1. Um evangelho de causa e efeito.


    Lembra-te agora qual é o inocente que jamais pereceu? E onde foram os sinceros destruídos? Segundo eu tenho visto, os que lavram iniquidade, e semeiam mal, segam o mesmo”. Jó 4.7-8.

    No entendimento de Elifaz Deus jamais permitiria que tal calamidade assolasse a vida de um justo. O sofrimento, a dor, a calamidade e as enfermidades atingem somente os ímpios. Ou seja, Jó está sofrendo porque pecou. “Porventura não é grande a tua malícia, e sem termo as tuas iniquidades?” (Jó 22.5).

    a. O Sofrimento é sempre fruto do pecado.

    Tal entendimento tiveram os discípulos quando Jesus curou um cego de nascença, saindo do templo em João 9.2; “E os seus discípulos lhe perguntaram, dizendo: Rabi, quem pecou, este ou seus pais, para que nascesse cego?”.

    Em nosso cotidiano geralmente fazemos essa leitura da vida, julgando o infortúnio do próximo e associando a calamidade a um pecado cometido. Talvez você esteja se perguntando: E não é assim? Eu lhe diria sim, mas não, nem sempre o sofrimento que assalta a nossa vida é consequência de pecado.

    Respondendo os discípulos, Jesus disse: Nem ele pecou nem seus pais; mas foi assim para que se manifestem nele as obras de Deus[4]. Em nosso contexto, muitos diriam que era maldição hereditária, que era necessário participar de campanhas para alcançar a vitória, pois o triunfalismo evangélico em nossos dias nos anestesiou a mente e o coração[5].

    No entanto, precisamos entender que mesmo na calamidade a Graça de Jesus está presente e que todas as coisas juntamente corroboram para o bem daqueles que amam a Deus[6].

    b. A Presunção de conhecer o bem e mal.

    Observaste tu a meu servo Jó? Porque ninguém há na terra semelhante a ele, homem íntegro e reto, temente a Deus, e que se desvia do mal” (Jó 1.8).

    Jó tinha o testemunho do próprio Deus de que era um homem íntegro, mas o infortúnio lhe sobreveio, na dimensão física, psicológica e social de seu ser. Ele mesmo não tinha explicação para o que estava acontecendo, só lhe restava o lamento e a perplexidade. “Por que se dá luz ao homem, cujo caminho é oculto, e a quem Deus o encobriu? Porque antes do meu pão vem o meu suspiro; e os meus gemidos se derramam como água. Porque aquilo que temia me sobreveio; e o que receava me aconteceu” (Jó 3.23-25).

    Lembro-me, de quando o saudoso pastor, Marcos Sobral, fora assassinado muitas pessoas chegaram a me perguntar se havia algum indício de transgressão pessoal, pois queriam associar o acontecido como resultado de um pecado.

    Essa leitura que fazemos da vida está entranhada em nosso ser por causa do nosso senso de justiça que tem origem na presunção de conhecermos o bem e o mal. O mesmo engano que atingiu Adão e Eva no princípio[7], pois somente Deus tem pleno conhecimento do bem e do mal.

    O conceito de Elifaz[8] é falível, pois não evidencia nem mesmo de forma autêntica a experiência humana, pois o ímpio nem sempre é castigado na vida presente e o justo nem sempre é recompensado pela sua integridade.

    Está em Cristo não nos imuniza dos sofrimentos próprios dessa existência debaixo do sol[9], mas nos assegura a bem-aventurança “acima do sol”.

    2. Um evangelho que julga, mas não justifica.

    Apega-te, pois, a ele, e tem paz, e assim te sobrevirá o bem. Aceita, peço-te, a lei da sua boca, e põe as suas palavras no teu coração. Se te voltares ao Todo-Poderoso, serás edificado; se afastares a iniquidade da tua tenda”, (Jó 22.21-23).

    Para consolidar seu falso evangelho, Elifaz passa a acusar e julgar a Jó. Suas acusações podem ser divididas nos seguintes blocos:

    · Jó sabia consolar os outros, mas não a si mesmo (4.1-5).
    · Jó sabia que aquilo que o homem semeia ele colhe, em outras palavras Elifaz estava dizendo que o seu sofrimento é consequência de pecado cometido (4.6-8).
    · No drama de Jó nenhum anjo ou ser espiritual lhe seria solidário (5.1-2).

    Faltava a Elifaz a visão de que muitas vezes Deus está mais presente nas consequências da calamidade do que na realização da prosperidade humana. A visão que Elifaz tinha sobre Deus, era de um deus meticuloso e minucioso que fica procurando imperfeições em suas criaturas, é o típico pensamento mergulhado nas buscas de auto justificação baseados em justiças próprias.

    Somente a justiça do Evangelho que é pela fé não julga, mas imputa justiça ao pecador. Portanto, somos justificados em Cristo, por meio da fé[10], e justificados nEle, quem intentará acusação contra os escolhidos Deus? É Deus quem nos justifica.

    3. Um evangelho mercantilista.


    Porém eu buscaria a Deus; e a ele entregaria a minha causa” (Jó 5.8).

    Um evangelho mercantilista é aquele que estabelece a troca, a barganha como base do relacionamento entre Deus e o ser humano. O discurso de Elifaz parece virtuoso, mas, na verdade ele está indiretamente afirmando que Jó estava sofrendo porque não buscava a Deus, se buscasse a Deus Jó não estaria experimentando a dor de tal calamidade.

    a. Uma Fé Cambista

    A mesma proposta está inserida no evangelicalismo brasileiro contemporâneo, com raras exceções. E, muita das vezes, pensamos e praticamos uma fé nas mesmas categorias do falso evangelho de Elifaz.

    Logo que me converti, mergulhado no abundante amor de Deus, me deparei com a prática do VOTO, muito comum na congregação da minha infância espiritual e continua sendo até hoje prática de muitos evangélicos em seu relacionamento com Deus.

    Mas o que é fazer um VOTO a Deus?

    Um VOTO consiste em oferecer ou fazer algo para Deus, se quem o fizer for atendido por Deus.

    Todavia, não podemos esquecer que tal prática constitui-se numa troca de favores e não encontra nenhum texto no NT normatizando-a. Nossas petições devem ser colocadas diante de Deus em oração e súplica[11], submetendo-as sempre a vontade soberana de nosso SENHOR.

    1 João 5.14-15: E esta é a confiança que temos nele, que, se pedirmos alguma coisa, segundo a sua vontade, ele nos ouve. E, se sabemos que nos ouve em tudo o que pedimos, sabemos que alcançamos as petições que lhe fizemos”.

    Em 2 Reis 5, após ser curado graciosamente por Deus, Naamã voltou ao profeta para lhe retribuir a cura com presentes, mas o homem de Deus lhe disse: “Vive o SENHOR, em cuja presença estou, que não a aceitarei. E instou com ele para que a aceitasse, mas ele recusou[12]”.

    E por que o homem de Deus recusou seus presentes? Porque o profeta queria ensinar a Naamã, ainda de mente pagã, a boa nova da Graça de Deus.

    Conclusão

    Esse “deus” de Elifaz não é o Deus Todo-Poderoso em Graça que age em amor e misericórdia mesmo na ira[13], pois até mesmo o mau que sofremos pode trazer o sumo bem de Deus para nós. Jó sabia que Deus não se relaciona conosco com base em nossos méritos, mas, tão somente pela Graça Soberana revelada em Cristo antes da fundação do mundo[14]. Aleluia!

    Vagner Rodrigues | Pastor e professor de teologia.

    Bibliografia

    · Turner, Donald. D. Introdução ao Antigo Testamento. Ed. Imprensa Batista Regular.
    · Carson, D.A. Comentário Bíblico Vida Nova. Ed. Vida Nova.
    · Bentzen, Aage. Introdução ao Antigo Testamento. Ed. Aste.
    · Pfeiffer. Charles. F. Comentário Bíblico Moody. Ed. Imprensa Batista Regular.
    · Anderson, Francis I. Jó – Introdução e Comentário. Série Cultura Cristã. Ed. Vida Nova

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    [1] O sincretismo religioso é um fenômeno que consiste na absorção de influências de um sistema religioso de crenças por outro.
    [2] Mensagem cujo centro da mesma é o homem.
    [3] É a boa notícia de que Deus reconcilia o homem pecador consigo mesmo, não levando em consideração nenhum mérito humano, mas, sim, Sua soberana Graça, revelada em Cristo.
    [4] João 9.3.
    [5] A chamada Teologia da Prosperidade, difundida no neopentecostalismo, mas cuja raiz já alcançou até mesmo igrejas históricas é a principal coluna ideológica desse falso evangelho.
    [6] Romanos 8.28.
    [7] Gênesis 3.1-5.
    [8] Jó 4.7.
    [9] Eclesiastes 9.2.
    [10] Romanos 3.24-25 “Sendo justificados gratuitamente pela sua graça, pela redenção que há em Cristo Jesus. Ao qual Deus propôs para propiciação pela fé no seu sangue, para demonstrar a sua justiça pela remissão dos pecados dantes cometidos, sob a paciência de Deus. Para demonstração da sua justiça neste tempo presente, para que ele seja justo e justificador daquele que tem fé em Jesus”.
    [11] Filipenses 4.6.
    [12] 2Reis 5.16.
    [13] Habacuque 3.2.
    [14] Apocalipse 13.8.


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