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    AS DORES DO CONHECIMENTO - Por Eziongeber Vieira


    Gostaria de refletir sobre duas afirmações que circulam intensamente na nossa comunicação popular oral: “A ignorância é uma bênção”, e “Eu era feliz e não sabia”. O conhecimento é algo buscado, incentivado a ser conquistado, pago para ser adquirido, financiado pelo Estado para ser multiplicado, etc. Se é algo tão valioso, por que o fato de não tê-lo seria uma bênção, como diz a afirmação? 

    A sabedoria popular estaria equivocada? O velho filósofo hebreu escritor do Eclesiastes dizia: "Porque na muita sabedoria há muito enfado; e o que aumenta em conhecimento, aumenta em dor." (Ec 1.18). Eis uma faceta do conhecimento que dificilmente pensamos. O conhecimento é um fardo! Dele sobrevirão dores para o sujeito que conhece. Lembro-me então do outro dito popular: "Eu era feliz e não sabia!

    É... Eu era feliz e não sabia: Quando acreditava que os discursos dos políticos eram verdadeiros. Quando não conhecia sobre as negociações escusas ocorridas nos bastidores do Congresso, do Senado, das Assembléias Legislativas e Câmaras Municipais. 

    É... Eu era feliz e não sabia: Quando não tinha consciência de que a educação está a serviço do poder reprodutor da sociedade, e que todos nós envolvidos no processo somos parte dessa estrutura de dominação e reprodução. 

    É.... Eu era feliz e não sabia: Quando afirmava que os discursos institucionais das empresas (diferente dos discursos dos políticos) eram de fato imparciais e generosos. 

    A ignorância era então, uma bênção. Eu achava que os líderes mundiais assentados naquelas mesas atrás das bandeirinhas de seus países estavam reunidos na ONU verdadeiramente buscando uma solução pacífica para o mundo, e não tentando aproveitar cada situação para que seu país sobrepujasse os demais. 

    Eu era feliz e não sabia... Via nos livros de história a foto de Franklin D. Roosevelt, Stalin e Churchill, reunidos em Yalta, e pensava: "Grandes líderes o mundo tem! Homens sensíveis, do bem, e empenhados pela paz no mundo." Definitivamente a ignorância é uma bênção! 

    Fiquei emocionado um dia, quando vi soldados americanos sendo enviados ao Iraque e pensei: "Que nação altruísta! Enviando seus soldados para libertar outros povos, estando deixando de pensar em si mesmo para ajudar outros..." A ignorância é uma bênção! 

    Eu era feliz e não sabia quando via as cenas românticas das novelas e filmes e pensava: Como o amor é lindo! Somente carinho e romantismo! A ignorância é uma bênção! 

    Antes eu olhava para os filhos arrumados e penteados dos casais conhecidos e pensava: Que crianças lindas, bem comportadas, obedientes.... 

    A vida de ignorância é o paraíso. Somos felizes e não sabemos! A história do Éden também ilustra essa verdade. Adão e Eva estavam no Jardim, em total inocência, até que comeram do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal. Abriram os olhos e conheceram-se a si próprios e ao mundo que lhes rodeava. Começaram então seus sofrimentos, com a expulsão do Jardim. Viver de olhos fechados, viver ignorante, é uma bênção. Conhecer, compreender transforma-nos em seres sofredores. 

    Um dia comemos da árvore do conhecimento... e então, ocorre o inevitável! Passamos a sofrer! 

    Um dia descobrimos que aquele político acima de qualquer suspeita está envolvido em desvio de alguns milhões destinados a obras públicas. 

    Somos desafiados à reflexão ética acerca da Educação e nos vemos como agentes parciais do processo educativo, muitas vezes carregados de preconceitos e paradigmas equivocados. 

    De repente, olhamos para nossa empresa e não a reconhecemos. Seus discursos não condizem com sua conduta. Seus lemas, missão, propósitos, objetivos... tudo parece máscara que encobre a realidade de que a única preocupação corporativa é verdadeiramente o lucro! 

    Alguém publica algo além da história oficial, e nos deixa cientes do absurdo jogo de poder observado entre os líderes das potências do mundo do pós-guerra e que se desdobra numa guerra fria que dura mais de meio século! 

    Abrimos os olhos e descobrimos que o Grande Irmão Americano não é tão altruísta quanto parece. Vende armas para uma facção quando lhe é conveniente, lança uns contra os outros quando isto for benéfico à sua política comercial e econômica, e intervém heroicamente quando lhe convém... 

    Descobri que o amor é lindo, mas tem dimensões que dificilmente são exploradas nos filmes e novelas. Só o apóstolo Paulo teve coragem de expô-las tão claramente como ninguém o havia feito: “O amor é paciente, é benigno... tudo sofre, tudo espera, tudo suporta...” 

    Conversando com casais amigos percebi que não somente os meus filhos são levados, trabalhosos, rebeldes... Aquele comportamento das crianças dos outros na minha frente era só para “inglês ver”... Crianças dão trabalho de todo jeito! 

    Agora eu sei... Fui expulso do paraíso. Eu era feliz e não sabia. Sinto peso. Incômodos. Dores. Sofrimento. É perfeita a afirmativa do Eclesiastes: “Porque na muita sabedoria há muito enfado; e o que aumenta em conhecimento, aumenta em dor.” O que fazer então? Depois que se sabe não mais se volta aos caminhos da ignorância. 

    Preciso pensar que há beleza no sofrimento! Os estóicos talvez pensassem assim. Não preciso pensar que eu era feliz e não sabia. Sou feliz com o fardo da responsabilidade que o saber me traz. Preciso aprender a conviver com as dores da decepção, com o inconveniente dos paradoxos... Então, por que não propor que o conhecimento é uma bênção?

    Eziongeber Vieira

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